Mito da ideologia de gênero
Fernando Nogueira da Costa, A terra é redonda, 24 de novembro de 2026
A disputa sobre “ideologia de gênero” é, no fundo, disputa sobre os fundamentos da democracia e a organização das relações sociais
1. O artigo do cientista político Luis Felipe Miguel, “O mito da ‘ideologia de gênero’ no discurso da extrema direita brasileira” (Cadernos Pagu, nº. 62, 2021. Artigo integral na SciELO) analisa pronunciamentos e manifestações públicas do então presidente, líder do clã dos Bolsonaro, associado a milicianos. Luis Felipe Miguel observa a contraposição recorrente entre dois conjuntos de palavras. De um lado, família, tradição, religião, valores e pátria aparecem como referências legítimas e naturais. De outro, marxismo, gênero e globalismo são apresentados como forças ideológicas ameaçadoras dessa ordem.
O autor interpreta essa oposição como uma forma de negar o caráter historicamente construído dos valores tradicionais. As propostas de transformação social são classificadas pela direita como imposições artificiais.
Ele também examina manifestações de Jair Bolsonaro diante de episódios de violência contra mulheres e referências ao comportamento presidencial durante o início da pandemia. A intenção é relacionar a linguagem política analisada a atitudes públicas concretas.
O argumento culminante aparece na discussão de uma entrevista de Damares Alves. A ministra atribuiu a eleição de Jair Bolsonaro principalmente à identificação ideológica com a defesa da família, das crianças e de determinados valores.
Para o autor, isso revela por que a agenda moral não deve ser considerada simples distração em relação à economia. Ela desempenharia uma função de coesão política: manter uma base mobilizada em torno de valores compartilhados e de ameaças percebidas.
O autor também critica a tradição de análise política brasileira por considerar os conflitos de gênero secundários diante das disputas econômicas. Seu argumento é duplo: tais conflitos dizem respeito diretamente à integridade e à autonomia de milhões de pessoas e possuem relevância própria na constituição dos movimentos políticos contemporâneos.
Ele demonstra, por meio de discursos e episódios documentados, como a narrativa construída historicamente passou a integrar a identidade e a atuação pública do governo de Jair Bolsonaro.
2. A conclusão do artigo desenvolve três argumentos.
A primeira é a polarização política brasileira ser assimétrica. Luis Felipe Miguel contesta a interpretação segundo a qual a polarização brasileira resultaria de uma radicalização equivalente da direita e da esquerda. Na sua leitura, houve uma radicalização expressiva de setores da direita, enquanto o PT permaneceu vinculado a um projeto relativamente moderado e conciliatório.
A segunda é o pânico moral alimentar a polarização e depender dela. O autor propõe uma relação circular. A narrativa da ideologia de gênero contribui para intensificar a polarização porque apresenta mudanças culturais como ameaças à identidade e aos valores pessoais.
Ao mesmo tempo, a polarização favorece ambientes de comunicação fechados ao contraditório, nos quais alegações falsas podem circular e ser reiteradas. A consequência seria a formação de comunidades discursivas com critérios próprios de credibilidade.
A terceira é os direitos conquistados serem, simultaneamente, poderosos e frágeis. Os avanços dos movimentos feministas e LGBT foram suficientemente significativos para questionar privilégios e hierarquias anteriormente naturalizados. Entretanto, a intensidade da reação conservadora demonstraria esses avanços ainda não terem se consolidado em consensos sociais duradouros.
Por isso, o autor rejeita a ideia de reivindicações de gênero e direitos individuais poderem ser simplesmente abandonadas para reduzir a polarização. Em sua perspectiva, estão em questão princípios fundamentais da democracia: igualdade, autonomia individual e proteção contra a violência.
A conclusão é o conflito em torno da chamada “ideologia de gênero” expressar uma disputa profunda sobre a organização das relações sociais e os próprios fundamentos da ordem democrática.
Síntese da lógica argumentativa – transformações sociais e ampliação de direitos: feminismo, diversidade sexual e contestação de hierarquias tradicionais → construção da “ideologia de gênero”: reinterpretação das reivindicações como ameaça à família e à ordem moral → articulação com o anticomunismo: narrativa do “marxismo cultural” como explicação unificadora → pânico moral e mobilização política: campanhas educacionais, discursos religiosos e circulação digital → bolsonarismo como expressão política: incorporação das narrativas à campanha eleitoral e ao governo → polarização e reprodução do conflito.
A originalidade de Luis Felipe Miguel está em articular três dimensões frequentemente examinadas separadamente: (i) a história das ideias religiosas conservadoras, (ii) a reorganização ideológica da direita brasileira e (iii) a utilização eleitoral das controvérsias sobre gênero.
Na interpretação do autor, o anticomunismo foi atualizado para incorporar conflitos culturais e morais. Assim, a defesa da família tradicional passou a funcionar como ponto de convergência entre correntes políticas distintas.
Sua principal contribuição é recusar o reducionismo econômico segundo o qual a agenda moral seria apenas um desvio das questões materiais. Para Miguel, as disputas por reconhecimento, igualdade e autonomia possuem efeitos sociais próprios e são constitutivas da dinâmica política contemporânea.
Há, entretanto, uma delimitação metodológica importante: o artigo é uma análise qualitativa de discursos e acontecimentos selecionados. Ele não mede diretamente quanto a chamada ideologia de gênero contribuiu para o resultado eleitoral de 2018, nem demonstra todos os eleitores do clã Bolsonaro compartilharem as mesmas interpretações.
Também é necessário situar historicamente suas conclusões: o texto foi publicado em 2021 e analisa principalmente a trajetória anterior à eleição de 2018 e os primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro. Não se trata de uma avaliação dos acontecimentos posteriores.
Em síntese, a tese central pode ser expressa em uma frase: a construção do mito da “ideologia de gênero”, articulada ao anticomunismo e ao discurso do “marxismo cultural”, contribuiu para transformar disputas sobre igualdade e autonomia em uma narrativa de ameaça moral, favorecendo a mobilização política e a consolidação identitária da extrema direita brasileira.
Essa formulação preserva a lógica argumentativa de Luis Felipe Miguel. O conflito não se limita à existência de opiniões religiosas conservadoras, mas envolve a transformação de determinadas interpretações sobre gênero em instrumentos de disputa pelo poder político.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
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