Byung-Chul Han, a Europa liberal e nós
Em Sem respeito: Uma crise social, filósofo diagnostica o fim da cortesia, da esfera pública e da autoridade na Europa. Lido a partir do Brasil, o livro dialoga com o país onde descreve o precariado e as redes, e tropeça onde sente saudade de uma ordem que aqui nunca foi respeitosa
Diorman Amaral, Outras Palavras, 8 de outubro de 2026
Byung-Chul Han escreve a partir de Berlim e pensa com filósofos alemães, franceses e norte-americanos. Seu presente é o de uma Europa que conheceu o Estado de bem-estar, a social-democracia keynesiana e uma esfera pública burguesa relativamente estável, e que agora vê tudo isso se desfazer. Em “Sem respeito: uma crise social”, livro recém-lançado pela Editoras Vozes, é o relato dessa perda.
A tese é simples de enunciar. O respeito, que Han define a partir do latim respicere como “o olhar atrás para o outro”, seria o “aglutinante social” das sociedades modernas. E ele estaria se dissolvendo sob três pressões combinadas: a sociedade do desempenho, que transforma o respeito em prêmio por performance; as redes digitais, que eliminam a distância e o rosto; e o que o autor chama de “ordem horizontal”, um nivelamento geral em que valores, ideais e autoridades perdem altura.
Ler esse livro no Brasil é uma experiência no mínimo curiosa. Muitas páginas parecem escritas sobre nós, às vezes com mais precisão do que sobre a Alemanha, outras descrevem como perdido algo que por aqui nunca chegou a existir para a maioria. Com esse olhar e testando seus conceitos contra a experiência brasileira e contra alguns intérpretes que já pensaram, antes dele, a relação entre intimidade, hierarquia e desrespeito.
O homem cordial e a tirania da intimidade
O capítulo “Declínio da esfera pública” é uma releitura de O declínio do homem público, de Richard Sennett, cujo subtítulo alemão fala em “tirania da intimidade”. Han reconstrói a história: nos cafés europeus do século XVIII, as pessoas conversavam sem revelar sentimentos, história privada ou posição. A cortesia funcionava como uma máscara, e essa máscara permitia que estranhos convivessem sem se ferir. Depois vieram Rousseau e o culto da transparência, a psicologização do século XIX, a televisão e, por fim, as redes, onde todos expõem tudo e o espaço público se dissolve em privados que colidem.
O leitor brasileiro vai reconhecer aqui uma velha conversa. Em 1936, em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda descreveu o “homem cordial”: não o sujeito educado, mas aquele que age pelo coração, que não separa o privado do público e tem aversão às formas rituais e impessoais de convívio. Para Sérgio Buarque, a polidez era justamente o contrário da cordialidade: uma forma de defesa, quase uma máscara, que preserva o indivíduo diante dos outros. É exatamente o que Han, via Sennett, chama de civilidade.
A coincidência ilumina os dois lados. Ela mostra que o diagnóstico de Han tem alcance real: a invasão do espaço público pelo afeto, pelo íntimo e pelo pessoal produz, sim, desrespeito. No Brasil, produziu também patrimonialismo, clientelismo e a confusão entre Estado e família. Mas mostra também que a “tirania da intimidade” não é uma novidade digital. Aqui, ela é constitutiva. As redes não inventaram a cordialidade brasileira; deram a ela um alto-falante.
Há ainda uma diferença de remédio. Han parece desejar a volta dos rituais e das “belas aparências” de uma sociedade aristocrática. Sérgio Buarque apostava em outra impessoalidade: a das instituições democráticas, que tratam todos como iguais porque não perguntam quem é quem. A primeira é uma etiqueta. A segunda é uma república.
O precariado sobre duas rodas
O primeiro capítulo, “Luta por respeito”, é o que mais fala ao Brasil de 2026. Han parte da “sociedade bem-ordenada” de John Rawls, em que o autorrespeito não depende de renda nem de status, mas da igualdade de direitos e dos “vínculos de grupo” que amparam quem fracassa. E a contrapõe à sociedade neoliberal do desempenho, em que “o vencedor leva tudo” e o respeito vira resultado de performance: só é respeitado quem tem carreira, renda e patrimônio.
Nessa sociedade, escreve Han, os perdedores não formam uma classe. Cada um compete com todos, inclusive com quem está na mesma posição. “É isso que distingue o precariado do proletariado.” O operário fabril tinha solidariedade e um adversário comum. O “empreendedor de si mesmo” está sozinho, e sua raiva, sem direção, se volta contra tudo, inclusive contra si. Han retoma de Hans Magnus Enzensberger a ideia de uma “guerra civil molecular”: uma violência difusa, sem frentes nem bandeiras, que começa no lixo acumulado na calçada e no telefone de emergência cortado a alicate.
Qualquer leitor que já esperou uma entrega numa noite de chuva reconhece a figura. O entregador de aplicativo, formalmente “autônomo”, avaliado por estrelas, sem patrão visível e sem colega de fábrica, é o personagem perfeito do livro. A análise de Han sobre a vergonha também acerta aqui: não nos envergonhamos mais de falhas morais, mas de nossa própria insuficiência, do rendimento que não veio, do perfil que não engajou.
Mas o Brasil também oferece um desmentido parcial. Em julho de 2020, em plena pandemia, entregadores organizaram o “Breque dos Apps”, uma paralisação nacional por remuneração e condições de trabalho. Foi pequena diante do tamanho do problema, mas mostrou que o precariado não está condenado ao isolamento que Han descreve como destino. A solidariedade não desapareceu; precisa ser reinventada em outras formas. O livro, que decreta que “não é possível uma revolução” no regime neoliberal, não tem olhos para essas tentativas.
Do Capitólio à Praça dos Três Poderes
Han cita os apoiadores de Donald Trump que invadiram o Capitólio, em Washington, como exemplo do que Hannah Arendt chamava de turba, em oposição ao povo. “A turba não pode escolher; só pode aclamar ou apedrejar”, escreve Arendt, e ela “grita pelo homem forte”. O leitor brasileiro não precisa de tradução. Em 8 de janeiro de 2023, a Praça dos Três Poderes viu a mesma cena, com a mesma gramática e, em boa parte, organizada pelos mesmos canais.
O capítulo “Identidade e alteridade” oferece ferramentas úteis para entender esse percurso. Para Han, as redes produzem “tribos digitais” que vivem em bolhas de informação, cada uma com sua própria realidade, feita de simulacros e fake news. Nelas, opinião e identidade se fundem, e quem pensa diferente deixa de ser adversário para virar inimigo. É a política segundo Carl Schmitt, em que a identidade só existe contra alguém. Os grupos de WhatsApp da última década são talvez a melhor ilustração disponível dessa tese.
Han descreve Trump como encarnação de um “hipermoralismo desmoralizante”: alguém que denuncia moralmente os adversários enquanto ignora qualquer norma moral, inclusive a verdade. A fórmula serve com precisão à extrema direita brasileira, que fala em família, Deus e pátria enquanto normaliza a mentira. “A moral é usada como arma”, escreve Han. E a arma, lembra ele, não precisa de conteúdo: basta estigmatizar.
Há aqui, porém, um ponto cego que o caso brasileiro torna visível. Han coloca no mesmo capítulo, e quase na mesma chave, a turba autoritária e o que chama genericamente de “política da identidade”, sem nomear um movimento ou um caso. No Brasil, quem foi à Praça dos Três Poderes não foram os movimentos negro, indígena, feminista ou LGBTQIA+. Foram grupos que se diziam defensores da maioria e da tradição. A crítica ao cancelamento e à moralização vale para todos os lados. Mas colocar os dois fenômenos na mesma balança, sem distinguir quem reivindica reconhecimento de quem tenta suprimir a democracia, empobrece a análise.
Vale lembrar, ainda, um personagem que atravessa o livro: Vilém Flusser, filósofo nascido em Praga que viveu mais de três décadas no Brasil e sonhou a rede como “tecnologia do amor ao próximo”. Han registra, sem piedade, que a utopia se inverteu. Visto daqui, o fracasso da profecia de Flusser tem algo de história local.
Hierarquia à brasileira
A segunda metade do livro se organiza em torno de uma oposição: a “ordem vertical”, em que valores, ideais, modelos e autoridades estão acima de nós e por isso inspiram respeito, e a “ordem horizontal” do capitalismo digital, em que tudo se nivela e vira mercadoria. Kant se admirava diante do céu estrelado; nós habitamos o Google Earth e a nuvem. Os modelos viraram influenciadores, as comunidades viraram communities, e a autenticidade, “a forma de mercadoria da personalidade”.
No último capítulo, Han defende a autoridade em seu sentido latino: o auctor é o fundador, o garantidor, aquele que dá segurança. Como sintomas da crise, cita policiais e socorristas atacados e professores agredidos. É uma lista que faz sentido em Berlim. No Brasil, soa diferente. Aqui, a autoridade policial é, para uma parte enorme da população, negra e pobre, menos uma fonte de segurança do que de medo. “Respeitar a autoridade”, nas periferias, muitas vezes significa baixar a cabeça para não morrer.
O antropólogo Roberto DaMatta deu à hierarquia brasileira sua fórmula mais conhecida: “Você sabe com quem está falando?”. A frase condensa uma ordem vertical em que o respeito sobe, mas não desce. O elevador de serviço, o quartinho da empregada, o “doutor” exigido por quem tem diploma: nossa verticalidade nunca foi a do céu de valores de Kant. Foi a da casa-grande. Por isso, o “nivelamento” que Han lamenta tem aqui um outro sentido. Para muita gente, foi a primeira chance de ser tratado de igual para igual.
Curiosamente, o melhor argumento contra a nostalgia do livro está no próprio livro. No capítulo “Respeito moral”, Han recupera a distinção kantiana entre preço e dignidade e afirma que o respeito moral “cabe a todo ser humano”, que “ninguém precisa merecê-lo ou adquiri-lo”. É a ideia mais igualitária que existe. O que está “acima”, em Kant, não é uma pessoa sobre a outra, mas a lei que vale para todas. Se Han tivesse separado com mais cuidado a altura dos valores da hierarquia entre pessoas, seu livro seria mais útil justamente para países como o nosso.
O mesmo vale para os “vínculos de grupo” de Rawls, que Han elogia no início. No Brasil, esses vínculos existem e sustentam o autorrespeito de milhões: o terreiro, a associação de moradores, o coletivo cultural da quebrada, o movimento social. São exatamente as formas de pertencimento que o livro, ao desconfiar genericamente das identidades, corre o risco de não enxergar.
O respeito que ainda não tivemos
Sem respeito é um livro sobre uma perda. Han escreve como quem viu desaparecer uma casa: a da cortesia, da esfera pública burguesa, dos mestres com aura e dos valores que ficavam no alto. Para o leitor europeu, a melancolia faz sentido. Para o leitor brasileiro, a pergunta é outra: como se perde aquilo que, para a maioria, nunca chegou a existir?
Isso não diminui o livro; muda o uso que se pode fazer dele. Suas melhores ferramentas servem perfeitamente aqui: o precariado que não forma classe, a vergonha de não render, a raiva sem direção, as tribos digitais que confundem opinião com identidade, a moral usada como arma, o respeito que não se merece porque se deve. São conceitos que ajudam a pensar o Brasil do aplicativo, do WhatsApp e do 8 de janeiro.
O que não serve é o remédio. Não precisamos de volta a nenhuma ordem vertical, porque a nossa foi a da casa-grande. Precisamos, talvez, de algo que Han vislumbra de passagem e não desenvolve: a “política da amizade”, o respeito como “amizade política” que Arendt encontrou em Aristóteles, uma estima que dispensa intimidade e hierarquia. Ou a imagem que ele toma de Sennett, a do jazz, em que ninguém luta por reconhecimento porque todos tocam juntos. No Brasil, país de rodas de samba e de choro, essa imagem não precisa ser importada. Precisa ser levada a sério como projeto político.
Diorman Amaral é jornalista, professor, pesquisador e comunicador, mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista (PPGCOM/UNIP).

