Governo Lula: Da “Frente Democrática” à “União Nacional”

Lula e o PT estruturaram o novo governo ampliando a frente democrática que venceu as eleições, incorporando parcelas das tradicionais oligarquias do “Centrão”. Depois de conseguirem avançar para uma postura ofensiva sobre o bolsonarismo - desgastado pelo putsch de janeiro e por escândalos de corrupção - eles seguem buscando um pacto de governabilidade entre o setor financeiro, um dos Congressos mais conservadores da história e os movimentos populares. Seu objetivo é re-estabilizar o regime da Nova República, dar condições aos negócios de sempre, produzir algum crescimento e desfazer boa parte das iniciativas bolsonaristas. Mas esta estratégia vai evidenciando os limites estruturais da improvável aliança de classes no poder.  


Com a eleição de Arthur Lira (PP-Alagoas) como presidente da Câmara dos Deputados e de Rodrigo Pacheco (PSD, Minas Gerais) como presidente do Senado, em 1º de fevereiro de 2023, apoiados por Lula, completou-se o desenho político-institucional do terceiro mandato de Lula. “Sem Lira e Pacheco, nós não estaríamos aqui hoje. Eles foram os grandes responsáveis pela transição”, afirmou em 7 de abril o Ministro da Fazenda Fernando Haddad, referindo-se em particular à aprovação de uma emenda constitucional antes da posse, que garantiu orçamento para medidas básicas no primeiro ano de administração, como o Bolsa Família de R$ 600. E completou. “Isso é um reconhecimento justíssimo. (...). Não creio que eles vão faltar [agora], sobretudo com a agenda de recuperação fiscal e aquilo que é política de estado e não é política de governo”.

O governo eleito vem adotando medidas indispensáveis de reconstrução de instituições públicas desmontadas nos últimos anos, em especial nas áreas indígena e ambiental, com destaque para a Amazônia. O Judiciário aprofunda as investigações dos atos antidemocráticos cometidos pelo bolsonarismo radical - em final de abril já tinham sido sido tornados réus 300 dos 1390 presos pelo 8 de janeiro - e investiga um espetacular escândalo de corrupção que golpeia o coração do bolsonarismo - as “jóias das Arábias”. Avançam as iniciativas para reconstituir relações mais tranquilas entre a “frente democrática” e os militares – o Comandante do Exército desobediente foi substituído e os membros das Forças Armadas envolvidos nos atos de 8 de janeiro serão julgados como civis. A atuação do governo começa a ganhar fluidez, em alguns casos frente a situações dramáticas, como o do genocídio dos yanomamis, incentivado pelo governo anterior. Encaminha também um projeto para restringir a autonomia, hoje completa, das plataformas digitais, em especial na difusão de fakenews. Ainda há um tom de grande alívio nas esferas progressistas da sociedade: saiu-se da queda livre no abismo para um terreno firme.

A dura realidade da correlação de forças sociais elimina, contudo, as ilusões de que estaríamos frente a um governo “de esquerda”. A administração se move com bastante lentidão, consciente não só de seus limites legislativos, impostos pelos acordos de toma-lá-dá-cá com o Centrão[1] (sempre ameaçados pelos nada confiáveis parceiros), mas também pelas contradições dentro da “frente democrática” entre progressistas e liberais, como no caso dos atritos públicos entre a presidente do PT, Gleise Hoffman, e o Ministro da Fazenda, em torno do anúncio do novo regime de metas fiscais (a nova regra ou arcabouço já tramita no parlamento, para substituir o ultraliberal Teto de Gastos, de 2016, que transformou em regra constitucional que despesas e investimentos públicos só crescessem na razão direta da inflação do ano anterior.)

A transmutação do governo eleito da “frente democrática” em um governo de “união nacional”, dependente da direita e determinado a não mobilizar suas bases, é o quadro dentro do qual se darão as disputas nos próximos anos. Tudo indica que, depois dos anos de estresse permanente pela ofensiva neofascista, entramos em um período de expectativas rebaixadas. A esquerda social e o povo trabalhador necessitam orientações que não os amarrem nos limites atuais – comprometendo a luta pela democracia, pelas demandas populares e pela recomposição da esquerda – e que, ao contrário, potencializem as mobilizações por mudanças sistêmicas no Brasil.

Vivemos uma época de mudanças disruptivas globais que mergulharam a esquerda em uma grande confusão, já que o passado não oferece a bússola necessária para o presente. Não podemos antever todas as consequências das mutações em curso, mas podemos visualizar tendências que balizam posicionamentos programáticos e estratégicos. Foi o que fizeram, por exemplo, os socialistas no século XIX face à industrialização e os das primeiras décadas do século XX frente às guerras e revoluções, assim como os das décadas de 30 e 40 diante da luta contra o fascismo clássico e, depois, da revolução anticolonial.

Um primeiro marco, frente aos fascismos e conservadorismos que assomam pelo planeta, é a tarefa de qualificar a esquerda com um olhar estratégico na luta pela democracia política e social em todas as frentes, recusando os apelos populistas de adaptação a vitórias eleitorais fugazes, de um lado, e, de outro, a tentação de substituir o velho “socialismo real” pelo modelo chinês (ou russo!). Não há alternativas autoritárias frente ao fascismo. As liberdades e direitos democráticos importam e importam muito. Precisam estar ancorados em processos de auto-organização popular que não podem ser tratados de forma instrumental por esta ou aquela força política. Conquistar governos sem lastro social não é conquistar poder, é gerir o estado e o poder estabelecidos em benefício da lógica do capital.

Um segundo marco, frente a um mundo qualitativamente mais integrado, conectado e interdependente, em que o capital se universalizou e produz um emergência ambiental, é dar centralidade e um significado novo ao internacionalismo e ao ecologismo. Há uma herança universalista concreta e uma solidariedade fundamental a ser defendida frente à reação, sem a qual não há avanço político e social. Ela tem uma forma material, econômico-ambiental. Vencer a desigualdade requer outra economia, que rejeite os impulsos quantitativos do crescimento do PIB, e promova uma redistribuição fundamental da riqueza e do poder. Necessitamos uma proposta de economia à altura da inteligência, que rompa com o bloqueio imaginativo estabelecido, no Brasil, pela nostalgia do desenvolvimentismo. Ecossocialismo, decrescimento dos ricos e desglobalização econômica, acompanhados de uma integração regional qualitativamente superior, não serão conduzidas por forças políticas nacionalistas, mas em nome da defesa da teia da vida e de toda a humanidade.

Um terceiro marco é, frente ao mundo das plataformas, redes sociais e big techs, construir poder social e político antissistêmico. Vemos, por toda parte, processos poderosos de auto-organização popular que não se cristalizam em ferramentas políticas independentes dos trabalhadores. Uma alternativa sistêmica se organizará com um programa que permita que o mundo do trabalho possa abarcar toda sua heterogeneidade e construir as alianças sociais e políticas necessárias para disputar o poder político e estatal. Por todo o mundo as mulheres têm se colocado na dianteira da mudança social e política. Por outra parte, as estratégias cegas de disputas de governo deixaram, há já quatro décadas, de acumular força social, destruindo todas as promessas de esquerda que chegaram à direção de aparelhos de estados. Construção de novas ferramentas sociais e estratégias de luta pelo poder são inseparáveis.

Somente avançando programatica, organizativa e estrategicamente nestas agendas, os setores populares brasileiros terão a ancoragem necessária para disputar uma alternativa de organização da sociedade com a extrema-direita. Somente assim os socialistas poderão incidir sobre todo o espectro político que vai da centro-direita à centro-esquerda e ao progressismo, disputar e não serem disputados, dirigir e não serem dirigidos. Se o governo de “união nacional" de Lula-Alckmin-Lira  tragar para dentro de si a esquerda socialista, seus limites e impasses - combinados com novas vitórias dos fascismos contemporâneos no exterior e desmobilização social e política no país - darão condições para que a extrema-direita retome a iniciativa. Ela já se articula para 2026 e não teremos a chance de repetir 2022.

[1] No sistema político brasileiro, Centrão denomina um conjunto de partidos (hoje 14) que não possuem uma orientação ideológica específica e que têm como objetivo estar sempre perto do poder executivo, ou diretamente dentro dele, para obter vantagens na distribuição de cargos em órgãos públicos e estatais e obter recursos para redes clientelistas. Apesar do nome, o Centrão não é um grupo de “centro” mas um agrupamento de políticos de orientação conservadora, geralmente composto por parlamentares do "baixo clero", que atuam conforme interesses próprios de poder local, regional ou estadual (quando não familiar), ligado a práticas fisiológicas. A maior parte do Centrão esteve com Bolsonaro.

[2] São do Centrão atualmente Progressistas, PTB, MDB, União Brasil, Republicanos, PSD, Avante, Podemos, PSC, Patriota, Agir, Solidariedade, PROS. O Partido Liberal (PL), que já foi centrão, hoje é o partido de boa parte do bolsonarismo.

Anterior
Anterior

Notas sobre a pandemia, a partir da variante ômicron

Próximo
Próximo

Por que as eleições do Equador afetam tod@s nós