Brasil se aproxima de colapso ambiental
Carlos Nobre, Folha de S.Paulo, 23 de dezembro de 2025
Secas extremas, rios e lagos que desaparecem em períodos de estiagem, florestas que reduzem a produção de frutos e chuva e ecossistemas que perdem a capacidade de se regenerar. O que antes era projeção científica agora começa a se tornar realidade em vários biomas brasileiros e coloca o país diante do risco crescente de transformações ambientais que podem ser irreversíveis.
O novo relatório Geo Brasil 2025, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, do qual fui primeiro autor no capítulo "A crise climática no Brasil: tendências, desafios e caminhos emergentes", deixa claro: as mudanças climáticas, somadas ao desmatamento e à degradação, estão empurrando os biomas brasileiros em direção a pontos de não retorno.
Um ponto de não retorno é o momento em que um bioma perde sua capacidade natural de se recuperar de impactos ambientais, mesmo que as pressões humanas diminuam. A transição para outro estado ecológico pode ser irreversível. No Brasil, Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa já exibem sinais preocupantes de quão perto se encontram próximos de pontos de não retorno. Para a Mata Atlântica, ainda não há estudos que indiquem mudanças ambientais irreversíveis. Veja a seguir o que o relatório do Geo Brasil 2025 revela sobre esses riscos em cada bioma.
O que pode acontecer com os biomas brasileiros
A Amazônia atravessa um momento crítico. Em toda região sul da bacia, do oceano Atlântico até a Bolívia, a estação seca ficou de 4 a 5 semanas mais longa no período de 40 a 45 anos, ficando uma semana mais longa por década. Também está de 20% a 30% mais seca e entre 2ºC e 3°C mais quente. No sudeste da bacia, a floresta tornou-se fonte de carbono, indicando estar muito próxima do ponto de não retorno.
A floresta já perdeu parte da capacidade de reciclar a própria chuva. Isso enfraqueceu os "rios voadores" que abastecem de água o Cerrado, o Pantanal e uma parte significativa da Mata Atlântica. Se esta tendência continuar, a Amazônia pode perder a capacidade de se manter úmida e biodiversa, comprometendo a oferta de serviços ecossistêmicos ligados às atividades agrícolas e à saúde do povo brasileiro.
No Cerrado, as temperaturas sobem mais rápido que a média global, já superando 2°C. Entre 1990 e 2020, uma área de 230 mil km² no leste do bioma próximo à Caatinga passou a ter clima mais seco e quente, com características típicas de regiões semiáridas. Entre 2008 e 2023, o bioma perdeu mais de 150 mil km² de vegetação nativa. Se o aquecimento e o desmatamento persistirem, o Cerrado pode deixar de ser a savana tropical mais biodiversa do planeta, com impactos hídricos e ecológicos que ameaçam a segurança alimentar da região.
A Caatinga passa por um processo gradual de expansão da aridez. Em outras palavras, a Caatinga está ficando mais seca. No norte da Bahia, perto da divisa com Pernambuco, o aquecimento global fez surgir a primeira zona árida no Brasil, um processo que se deu nos últimos 30 anos. Se esta tendência continuar, o avanço da aridez pode provocar um massivo deslocamento populacional, forçando milhões de nordestinos a deixarem suas casas, gerando vulnerabilidade, conflitos por recursos e perdas culturais.
O Pantanal entrou em uma zona de risco climático. Barragens, dragagens, retificação de canais e o desmatamento reduzem a infiltração de água e alteram a dinâmica natural das cheias. O bioma registra aumento da temperatura máxima de 0,76°C por década e, desde 2019, as chuvas ficaram 32% abaixo da média histórica. Além disso, a superfície de áreas permanentemente alagadas caiu 68% em 2023 em relação à média de 1985 a 2023. Se essa tendência persistir, o Pantanal pode cruzar um ponto de não retorno hidrológico, comprometendo a reprodução da vida aquática, a regeneração da vegetação e atividades como pesca, turismo e a subsistência de comunidades locais.
No Pampa, no extremo sul do Brasil, a resiliência diminui à medida que áreas naturais são substituídas por monoculturas e pastagens, em um contexto de chuvas mais intensas. Dados históricos mostram que, entre 1913 e 2006, os verões ficaram mais chuvosos no Sul do país, elevando o risco de inundação e do lixiviamento do solo superficial (processo de remoção de nutrientes minerais solúveis), onde se concentra a maior parte da fertilidade. Se essa tendência continuar, algumas regiões podem cruzar um ponto de não retorno ecológico, com perda irreversível da fertilidade do solo e impactos diretos sobre a produção agrícola e a economia regional.
A Mata Atlântica já teve mais de 80% da vegetação original desmatada. Na parte central do bioma, onde se concentra grande parte da população, o aquecimento médio foi de 1,1°C, influenciado pelo aquecimento global, pela urbanização e por mudanças no uso do solo. No entanto, ainda não há estudos que apontam para um ponto de não retorno ecológico, o que é uma notícia positiva: o bioma mantém alto potencial de restauração florestal com espécies nativas, com menores riscos de perda dos investimentos.
Por que isso importa para o Brasil
Quando um bioma perde sua capacidade de se regenerar, não é apenas a natureza que sofre. A economia, a agricultura, a segurança hídrica, a geração de energia e a saúde pública também entram em risco. Doenças se intensificam, a produtividade agrícola cai, a qualidade da água piora e os danos às cidades se tornam mais frequentes.
Ainda é possível evitar os pontos de não retorno dos biomas e seus impactos? Sim. Por isso, o relatório Geo Brasil 2025 destaca a urgência de zerar o desmatamento, a degradação e o fogo, além de iniciar no país o maior esforço de restauração ambiental do planeta e de adaptação das cidades. Também será essencial proteger os remanescentes de vegetação nativa e zerar globalmente as emissões de gases de efeito estufa até 2040, para evitar que o aquecimento global ultrapasse significativamente 1,5°C.

