2025, o ano zero da armadilha de Tucídides e em que caiu a máscara ao livre mercado

A guerra comercial e as barbaridades neocoloniais de Donald Trump que marcaram este ano não são mais do que o início de uma guerra pela hegemonia e uma mostra da caducidade das velhas fórmulas da globalização.

Yago Álvarez Barba, Esquerda.net, 30 de dezembro de 2025

“Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável”, escreveu Tucídides, um historiador grego que, cinco séculos antes de Cristo, escreveu História da Guerra do Peloponeso. Nela, o historiador narra que Esparta era a potência hegemónica no mundo grego, mas que Atenas crescia rapidamente em todos os domínios, tanto económicos como bélicos. Os espartanos viram essa ascensão como uma ameaça e iniciaram alguns anos de reação através de bloqueios comerciais, chantagens e pressões que acabaram por desencadear a batalha entre as duas potências, conhecida como Guerra do Peloponeso.

Já no século passado, o politólogo norte-americano Graham Allison, assessor de várias administrações na Casa Branca em matéria de tomada de decisões em tempos de crise e guerra, cunhou o termo “a armadilha de Tucídides” para se referir àqueles momentos históricos em que uma potência hegemónica está a perder o seu estatuto perante uma nova potência emergente e, com a sua resistência, acaba por conduzir ambas a uma guerra que decide quem será a nova nação a dominar e controlar as regras do mundo.

Depois de ler estes dois parágrafos, tenho a certeza de que qualquer leitor já deve ter os Estados Unidos e a China em mente. O último inquilino da Casa Branca quebrou todas as regras do jogo que eles próprios impuseram nas últimas décadas. A guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos em 2025 desmontou todos os consensos económicos e políticos das últimas décadas. Às tarifas alfandegárias somam-se as declarações neoimperialistas da administração Trump sobre a Gronelândia ou o Panamá. E, para terminar o ano, ataques e intimidações a países com petróleo ou terras raras, como a Venezuela ou a Nigéria. Um conjunto de batalhas que cheiram a guerra fria. 2025 foi o ano em que Trump deu o primeiro passo para nos levar à armadilha de Tucídides, porque tem medo da sua Atenas, a China do Partido Comunista.

O mercado livre e a globalização convenciam o Ocidente enquanto podíamos continuar a esgotar os recursos do sul, aproveitar-nos da sua mão de obra barata e controlar esses países à nossa vontade, sob o jugo do nosso poder económico, tecnológico e, quando necessário, bélico. Acima de tudo, claro, o da potência hegemónica que ditava as regras do jogo desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos. Se quisesse entrar nos mercados financeiros internacionais, tinha de abrir a sua economia às potências ocidentais e eliminar as tarifas aduaneiras. Se quisesse que o FMI lhe emprestasse dinheiro, ter um lugar nos clubes dos países que tomam as decisões ou se pretendesse sair da miséria ou avançar nos processos de descolonização, tinha sempre de abrir a sua economia. As tarifas aduaneiras eram o inimigo número um do progresso... até que a China cresceu o suficiente para assustar a sua Esparta.

Não é por acaso que o país que forçou o resto do planeta a abrir as suas fronteiras e eliminar as barreiras ao comércio seja o mesmo que agora as levanta com mais força do que nunca. Os Estados Unidos desfizeram o tabuleiro da globalização porque já não são os grandes beneficiários desta, agora têm de competir com a China e as regras atuais não lhes convêm. E quando um gigante com uma economia planificada como esse começa a pôr em causa e a ameaçar a hegemonia económica e geopolítica dos Estados Unidos, então o comércio livre já não agrada tanto. Os mantras de décadas são apagados de uma penada e dá-se o pontapé de saída para a guerra comercial que, sem dúvida, marcou este ano de 2025.

Estamos perante a morte da ideologia que manteve um consenso entre as elites e as classes dominantes do Ocidente e grande parte das elites do sul global. O que ainda está por ver é qual será o resultado e o que florescerá neste impasse. Estamos naquilo que Gramsci chamou de “interregno”, aquele terreno onde o que era antes fica velho e o novo ainda não está totalmente definido e onde, como dizia o italiano, aparecem os monstros, em referência ao fascismo do século passado. Neste interregno, o fascismo tem cabelos loiros e pele alaranjada.

O uso de tarifas por parte de Trump não tem qualquer tipo de lógica de reabilitação da sua economia interna, o Make America Great Again, como insiste em salientar a verborreia do seu presidente. As tarifas indiscriminadas, sem levar em conta a quais produtos e serviços são impostas, não servem para impulsionar as indústrias locais nos casos em que essas indústrias nem sequer existem, não podem suprir a procura interna ou não conseguem igualar o preço, mesmo com a ajuda do imposto sobre as importações. Essas tarifas acabam por ser pagas pelos norte-americanos. O défice dos EUA está a diminuir graças ao facto de Trump estar a sangrar os seus concidadãos, não porque as potências e os produtores estrangeiros o estejam a pagar.

Mas não importa, porque a guerra comercial de Trump nunca teve como objetivo satisfazer os cidadãos do seu país, mas sim pressionar as outras potências através do seu poder de compra e da coação de que o maior mercado do mundo lhe feche as portas ou as feche um pouco. A política comercial de Trump só pode ser entendida de um ponto de vista neoimperialista. Toda a estratégia tem um único objetivo que se lê nas entrelinhas de cada ação da Casa Branca: fortalecer os Estados Unidos frente à China, fazer recuar o gigante asiático e obrigar os restantes Estados a escolherem de que lado vão estar neste novo período de guerra fria.

Não foi uma simples batalha de tarifas. Só em 2025, assistimos a ameaças de Trump que pretendem tomar o controlo das rotas comerciais presentes e futuras (Panamá e Gronelândia). Limitações e proibições às empresas tecnológicas chinesas em território europeu ou estadunidense, algo impensável há apenas dez anos. Restrições às exportações de matérias-primas raras por parte da China, o que pode bloquear a produção de microchips e outras tecnologias em todo o planeta, ou ataques diretos à indústria automóvel elétrica chinesa ou aos setores das energias renováveis, onde Xi Jinping domina em tecnologia e preços, colocando em risco a indústria automóvel ocidental ou o seu domínio sobre os hidrocarbonetos. A lista destas ações tem sido interminável durante o ano que termina.

Entretanto, a União Europeia não sabe nem por onde lhe bate o vento “A Europa foi a única que acreditou na globalização quando esta existia de verdade, os outros fingiam acreditar, e é a única que continua a acreditar nela”, afirmou com sabedoria o ensaísta e jornalista Esteban Hernández numa entrevista ao El Salto. No meio de uma dura guerra comercial em que a grande potência se retrai e quebra as regras do jogo do mercado livre para não perder a corrida contra uma potência emergente com uma economia planeada por um partido comunista, a Europa continua a colocar os interesses dos “mercados”, esse conceito que usamos para nos referirmos principalmente aos fundos de investimento norte-americanos, acima das ações político-económicas estratégicas que deveriam estar a ser executadas, não só para não cair na irrelevância na batalha hegemónica entre os EUA e a China, mas também para não acabarmos por ser o novo sul global dentro de algumas décadas, passando primeiro por governos fascistas na maioria dos 27.

Para além de algumas sanções tímidas às empresas tecnológicas estadunidenses ou dos escassos investimentos estratégicos, como investir alguns milhões para fabricar chips ou satélites na Europa, a Comissão Europeia e a maioria dos Estados-Membros têm-se curvado perante Trump, aceitando as tarifas, as ingerências políticas e o apoio a partidos fascistas europeus por parte do presidente e de Elon Musk, as ameaças aos reguladores de Bruxelas, as ameaças contra a Dinamarca pela questão da Gronelândia ou, pior de tudo, aceitando maioritariamente aumentar as despesas com a defesa para 5% do PIB, dinheiro que acabará, na sua grande maioria, nas contas de resultados das principais empresas de armamento estadunidenses.

Entretanto, os BRICS, esse clube de países fartos da ordem estabelecida liderada pelos Estados Unidos, não param de crescer e avançar na conquista de um mundo multipolar. Talvez não se importem tanto se a China é ou não a nova Esparta, por enquanto, mas estão fartos de aturar as ingerências dos Estados Unidos. E aqui não estamos a falar apenas da administração Trump, mas de todos os governos estadunidenses das últimas décadas. Estão fartos das regras financeiras a que foram submetidos, cansados dos sistemas globais que os esgotaram sob falsas promessas de progresso e irritados por não serem tidos em conta nos grandes clubes e centros de decisão global, como as Nações Unidas ou a NATO, onde apenas dão uma cadeira a alguns deles quase por caridade e com paternalismo, mas onde realmente têm muito pouca influência. Cada vez mais países estão a escolher um lado nesta nova guerra fria e a China é a que mais convence e atrai.

Possivelmente, a guerra hegemónica entre os Estados Unidos e a China, entre a OTAN e os BRICS, entre o mundo unipolar e o multipolar, será o que marcará a história na próxima década. A globalização também expandiu a batalha, que já não se dará entre duas cidades gregas, mas entre dois mundos ainda mais divididos do que durante a Guerra Fria.

Mais do que analisar o que já se partiu e desmontou diante dos nossos olhos, é interessante pensar nos possíveis futuros que enfrentamos. A China não vai abandonar a sua agenda expansionista nos países do sul, por mais que Trump se debata ou que alguns países, como a Argentina, lhe virem as costas. Como demonstra a expansão do clube dos BRICS, há dezenas de países fartos do imperialismo estadounidense e que decidiram experimentar outro que, embora tenha traços de um novo imperialismo comercial, não é tão sanguinário e fascista como o praticado pela Casa Branca.

Mas a questão crucial deste momento histórico é o que os Estados Unidos farão. Essa é a principal questão que analistas de todos os tipos tentam resolver e que Trump é capaz de descartar com uma publicação na sua rede social. O que está claro é que os Estados Unidos deram o pontapé inicial para uma nova era. O Make America Great Again só pode acontecer se a China voltar a ser pobre again. E é claro que isso não vai acontecer ou que não será nada fácil. Em 2025, foi atirada a primeira lança na nova batalha pela hegemonia. Trump começou e fez-nos cair na armadilha de Tucídides.

Yago Álvarez Barba é coordenador da secção de economía do El Salto. Artigo publicado em El Salto.

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